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“OS MARCIANOS ESTÃO CHEGANDO!”:
AS DIVERTIDAS E IMPRUDENTES REINVENÇÕES DE UM ATAQUE ALIENÍGENA NO CINEMA E NO RÁDIO.

Por Alexandre Busko Valim (leia sobre o autor na coluna à direita)

 

Artigo publicado originalmente na revista Diálogos (Vol.10, n.1 – 2006) da UEM (Universidade Estadual de Maringá). Texto disponível em formato PDF aqui. Publicado neste site com a gentil autorização do autor e do editor da revista.

 

Resumo: Por muitos anos, o Planeta Terra sofreu diversas invasões marcianas. Tais ataques, por vezes devastadores e aterrorizantes, ocorreram nos livros, filmes, revistas, histórias em quadrinhos, jogos eletrônicos e no rádio. Todavia, muitas das invasões marcianas representadas ao redor do mundo guardam entre si uma estreita ligação: foram inspirados em A Guerra dos Mundos, escrito por H.G. Wells e publicado na Inglaterra em 1898. Com base em algumas representações encenadas em Portugal e no Brasil, pretendemos discutir as origens e transcodificações de uma obra de ficção e problematizar como, através do imaginário popular, podemos identificar a reelaboração e associação de idéias ligadas a diferentes contextos do século XX. Palavras chave: imaginário popular; invasão alienígena; cinema; rádio.

“THE MARTIANS ARE COMING!”: THE COMICAL AND IMPRUDENTS REINVENTIONS OF AN ALIEN ATTACK IN THE CINEMA AND THE RADIO.
Abstract: For many years, the Earth suffered diverse Martian invasions. Such attacks, for times devastating and terrific, had occurred in electronic books, movies, magazines, comics, games and in the radio. However, many of the represented Martian invasions around of the world keep between itself a narrow linking: they had been inspired in The War of the Worlds, written by H.G. Wells and published in England in 1898. On the basis of some representations exhibited in Portugal and Brazil, we intend to argue the origins and the transcodings of a fiction workmanship and to inquirer how we can identify the rework and association of ideas on the different contexts of XX century through the popular imaginary.
Keywords: popular imaginary; alien invasion; cinema; radio.

 

O filme A Guerra dos Mundos, produzido em 2005, dirigido por Steven Spielberg (1946 -) e estrelado por Tom Cruise (1962 -), encena uma devastadora e aterrorizante invasão marciana. O ataque alienígena, no entanto, foi apenas mais um das várias invasões sofridas pelo planeta Terra através de livros, filmes, revistas, histórias em quadrinhos, jogos eletrônicos e rádio.

Muitas das várias invasões marcianas representadas ao redor do mundo guardam entre si uma estreita ligação. Qual poderia ser a relação, por exemplo, entre um filme dirigido por Spielberg, um escritor inglês, um famoso ator norte-americano, e as cidades de Lisboa – Portugal, Caratinga - MG e São Luis - MA?

Um dos livros mais famosos do escritor inglês Herbert George Wells (1866-1946) foi A Guerra dos Mundos, publicado na Inglaterra em 1898. Nesse livro, considerado um marco da ficção científica, os marcianos, após esgotarem os recursos naturais de seu planeta, invadem a Terra e iniciam o extermínio da raça humana. A destruição tem início na pequena cidade inglesa de Woking. Logo, Londres é destruída e, a seguir, todo o planeta.

Na obra de H.G. Wells os extraterrestres utilizavam terríveis raios térmicos que desintegravam as pessoas instantaneamente. Os invasores, que se locomoviam através de impressionantes naves espaciais, construíam milhares de apavorantes torres de guerra e eram aparentemente indestrutíveis, são derrotados ao final do conto por microorganismos terrestres inofensivos aos seres humanos (WELLS, 1953; ENDLER, 1998: 25).

A invasão dos marcianos e a sua falta de anticorpos, estava relacionada a um questionamento da civilização e do imperialismo inglês que na época exercia uma grande influência sobre o mundo. A cruel dominação dos invasores que se alimentavam de sangue humano, matavam sem necessidade e transformavam tudo ao seu alcance em cinzas, é uma outra comparação feita pelo autor com a destruição da natureza e com os genocídios praticados por países colonialistas como a Inglaterra.

No final do século XIX, a Inglaterra era o centro do maior império colonial do mundo. Em Londres, o colonialismo era considerado por muitos como um ato patriótico benéfico não apenas para a Inglaterra, mas também para os povos colonizados, pois tornava possível o progresso, a civilização, o cristianismo e a ordem britânica. H.G. Wells não compartilhava dessa visão, por isso, em A Guerra dos Mundos, os marcianos são tão destruidores e bem mais evoluídos do que a raça humana. Em sua obra, onde a técnica e a estratégia humana falharam na luta contra os invasores, venceram os seres cuja existência passava despercebida. A ficção também apresentou a prepotência do exército vencedor e a aniquilação dos valores e da cultura dos conquistados vistos pela ótica da sociedade conquistada.

Para o colunista William L. Alden, em uma das várias resenhas do livro publicadas pelo New York Times em 1898, a invasão imaginada por Wells além de terrivelmente impressionante, era também bastante provável. O colunista disse ainda, que seu único receio era de que um dia os marcianos atendessem às sugestões do livro e pusessem em prática a invasão aventada por H.G. Wells (ALDEN, 15/01/1898).

Quase 40 anos depois, em 30 de outubro de 1938, véspera da celebração do dia das bruxas nos Estados Unidos, a invasão, de certa forma, finalmente ocorreu. Com base no livro do mencionado escritor inglês, o jovem ator norte-americano Orson Welles (1915-1985) fez um programa de rádio simulando a invasão extraterrestre. O programa causou pânico em boa parte do país ao fazer muitos acreditarem que os marcianos haviam aterrissado a bordo de cilindros metálicos e invadido a Terra.

Logo no início da transmissão, o ouvinte foi levado a esquecer que estava ouvindo uma obra de ficção, pois o programa foi repetidamente interrompido por diversos boletins de notícias. As falsas chamadas extraordinárias que supostamente cobriam os acontecimentos foram divulgados com freqüência cada vez mais intensa:

Locutor: Senhoras e senhores, este é o último boletim da Intercontinental Radio News, em Toronto, Canadá. O professor Morse, da Universidade Macmillam, informa ter observado um total de três explosões no planeta Marte entre 19:45h e 21:20h, horário do leste. Isto confirma as informações anteriormente recebidas de observatórios americanos. Agora, de perto de nosso lar, Trenton, Nova Jersey, chega um boletim (...) (ZAREMBA, BENTES, 1996: 145).

 A transmissão continuou interrompendo a programação "normal" de forma crescente até que o repórter fictício Carl Phillips passou a transmitir em tempo integral de Grover's Mill, onde supostamente haveria sido encontrado um enorme meteoro que logo depois se descobriu ser um cilindro de metal:

 Repórter Carl Phillips: (som alto e incompreensível ao fundo) Senhoras e senhores, aqui é Carl Philips novamente, agora na fazenda Wilmuth, em Grover’s Mill, Nova Jersey. O professor Pierson e eu fizemos as onze milhas de Princeton em dez minutos. Bem, eu não sei por onde começar. Diante de meus olhos. Bem, eu acabei de chegar. Ainda não tive a chance de olhar em volta. Eu acho que é isto. Sim, eu acho que esta é a “coisa”, exatamente na minha frente, semi-enterrada num grande buraco. Deve ter se chocado com uma enorme força. O solo está coberto de pedaços de árvores que o objeto deve ter derrubado na descida. O que eu posso dizer é que o objeto em si não parece muito com o meteoro. Pelo menos não com os meteoros que eu já vi. Parece-se mais com um imenso cilindro (...)(ZAREMBA, BENTES, Op cit: 146).

 A tensão foi construída cuidadosamente utilizando-se de entrevistas com autoridades e a dramática descrição de um monstro a sair do cilindro:

 Repórter Carl Phillips: Senhoras e senhores é indescritível. Mal posso me forçar a continuar olhando. É tão horrível. Os olhos são pretos e brilham. Têm a forma de uma abelha. A saliva pingando de seus lábios que parecem tremer e pulsar. Este monstro, ou o que quer que seja, mal pode se mexer. Está sendo puxado para baixo por possivelmente a gravidade ou algo assim. A coisa está se levantando agora e os espectadores caem para trás (ZAREMBA, BENTES, Op cit: 151).

 Conforme o noticiado, o primeiro confronto haveria terminado com 40 mortos. No segundo ataque, sete mil homens do exército, armados com rifles e metralhadoras, haveriam sido desintegrados com os raios térmicos. Durante o programa, além de haver informado a descoberta de novos cilindros, Orson Welles continuou a transmitir mais “notícias” de destruição, de mortes, e da ajuda que haveria sido oferecida por Inglaterra, França e Alemanha.

 Ao final da transmissão, o locutor finalmente revela que o programa tratava-se de uma ficção:

 Aqui fala Orson Welles, senhoras e senhores, sem máscara, para assegurá-los de que A Guerra dos Mundos não tem maior significado que uma distração de feriado que tinha a intenção de ser: A versão para rádio própria do Mercury Theater de vestir-se com lençóis e pular de um arbusto dizendo “Boo”. Começando agora nós não poderíamos ensaboar todas as suas janelas e roubar todos os portões dos jardins até amanhã à noite, então fizemos a segunda melhor coisa: Nós aniquilamos o mundo diante de seus próprios ouvidos e finalmente destruímos a CBS. Vocês terão um alívio, eu espero, ao saber que nós não tínhamos a intenção, e que ambas instituições estão abertas para os negócios. Então, adeus a todos e lembrem-se, por favor, da terrível lição que aprenderam hoje à noite: aquele sorridente, luminoso, invasor do globo de sua sala de estar é um habitante do campo de abóboras e se sua campainha soar e ninguém estiver lá, não era um marciano. É Halloween (ZAREMBA, BENTES, Op cit: 155).

 Entretanto, apesar do esclarecimento, a interpretação sonora do extermínio da raça humana pelos monstros extraterrestres durante a transmissão de uma hora fez milhares de norte-americanos rezarem, chorarem e fugirem apavorados. enquanto muitos se despediram dos parentes e preveniram os vizinhos do perigo que se aproximava, outros ligaram insistentemente pedindo ambulâncias aos hospitais e viaturas policiais (NEW YORK TIMES - NYT, 31/10/1938; NEBRASKA STATE JOURNAL, 31/10/1938).

A rede de rádio Columbia Broadcasting System (CBS), calculou à época que das seis milhões de pessoas que ouviram o programa, pelo menos 1,2 milhão tomaram a dramatização como fato verídico, ao acreditarem que haviam de fato acompanhado uma reportagem extraordinária. Calculou-se ainda que dentre os ouvintes, meio milhão tiveram a certeza de que o perigo era iminente e, ao entraram em pânico, agiram de forma a confirmar os fatos que haviam sido narrados ocasionando sobrecarga de linhas telefônicas, aglomerações nas ruas, congestionamentos etc.[1]

Embora o programa tenha repercutido em todo o país e até mesmo no Canadá, o pânico (como por exemplo, fuga em massa e reações desesperadas de moradores) ocorreu principalmente em localidades próximas a New York e New Jersey, de onde a CBS transmitiu o programa e Orson Welles situou sua história. Além disso, os ouvintes, aparentemente, não deram atenção ou não ouviram a introdução do programa: The Columbia Broadcasting System and its affiliated stations present Orson Welles and the Mercury Theatre on the Air in `The War of the Worlds' by H. G. Wells (NYT, 31/10/1938). Não bastasse o alerta haver passado despercebido, os ouvintes, dentre os quais alguns que chegaram a “ouvir” as explosões e até mesmo a “ver” a invasão, também não associaram o programa à chamada veiculada horas antes da transmissão: Today: 8:00-9:00--Play: H. G. Wells's `War of the Worlds'—WABC (NYT, Op cit.).